terça-feira, 29 de março de 2011

Jornais de papel x publicações digitais

O crescimento acelerado do número de publicações digitais na web, acompanhado do desenvolvimento da internet e sua conseqüente popularização em larga escala, tem despertado uma polêmica interessante entre jornalistas e especialistas em novas tecnologias: o jornal em papel vai acabar? As opiniões são divergentes. Alguns acreditam que os jornais convencionais não sobreviverão ao próximo século. Tudo será digitalizado e até a televisão, como nós a conhecemos, deixará de existir. Outros afirmam que a internet não representa uma ameaça às publicações impressas e que nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, vai superar a comodidade e o conforto que um jornal em papel proporciona aos leitores.

E o assunto ganhou ainda mais destaque quando, há duas semanas, o presidente do grupo New York Times, Arthur Sulzberger Jr. admitiu, em conversa com o repórter israelense Eytan Avriel, do diário Ha'retz, de Tel Aviv, que "não podia garantir" que o Times continuará a ser impresso daqui a cinco anos. "Nosso objetivo é gerenciar a transição do impresso para o online", disse Sulzberger ao repórter, explicando que os lucros do jornal estão em declínio faz quatro anos e que 1,5 milhão de pessoas lêem o jornal online contra 1,1 milhão de assinantes do papel, além de os classificados já estarem migrando para a internet.
Muitas são as vantagens das publicações eletrônicas. Os jornais digitais são mais interativos, os custos de produção e distribuição são reduzidos, os artigos e reportagens podem ser complementados com informações adicionais que não teriam espaço nas edições em papel, as notícias podem ser atualizadas várias vezes durante o dia e acessadas instantaneamente por leitores em qualquer lugar do mundo. Além de todas estas vantagens, há também a possibilidade de se implantar serviços especiais, como consulta a bancos de dados com arquivos das edições passadas, classificados online, programas de busca, fóruns de discussão abertos ao público, canais de bate-papo em tempo real e muitos outros.
O magnata francês Arnaud Lagardère, dono de diversos veículos de comunicação, em entrevista publicada ano passado pelo Journal du Dimanche, sustentou que os jornais desaparecerão em uma década. Para ele, a tinta e a textura do papel ficarão para publicações mais sofisticadas, de periodicidade semanal ou mensal, como as da imprensa feminina, de decoração ou automobilística, já que os custos de produção da mídia em papel se tornarão insustentáveis. "O fututo é a desmaterialização do suporte tradicional como no cinema, onde a película já cede lugar progressivamente ao digital", garante Lagardère.
Apesar de confessar não ter a menor idéia de como será o futuro dos jornais, o jornalista do grupo O Estado de S. Paulo Pedro Dória, especializado em tecnologia e um dos primeiros "blogueiros" do país, lembra que o número de leitores de jornal vem caindo desde a década de 1950, quando o jornal impresso teve seu ápice. "Uma pesquisa nos Estados Unidos mostra que, enquanto todas as pessoas com mais de 80 anos lêem jornal, apenas 40% das pessoas nascidas após 1960 e 20% da geração de 1980 têm esse hábito", comentou. "Ler jornal é hábito adquirido, é um ritual de passagem para a vida adulta, por volta dos 20 anos o jovem começa a ler. Mas os jovens de 20 anos não estão adquirindo esse hábito - estão buscando informações na internet", constatou. Para ele, esses dados podem ser interpretados de duas formas: ou ninguém vai mais ler jornal mesmo, ou faz parte do quadro de adolescência tardia da sociedade contemporânea, com pessoas saindo de casa cada vez mais tarde. "Quem sabe aos 30 eles não comecem a ler?", sugeriu.
Periódicos europeus testam o papel digital
Na Bélgica, o jornal De Tijd - especializado em economia - já está circulando em fase experimental para 200 assinantes. O jornal utiliza telas portáteis, conhecidas como e-readers. Essa tecnologia de display utiliza milhões de cápsulas microscópicas preenchidas com pigmentos claros e escuros que se tornam visíveis (ou invisíveis) quando ativados por uma corrente elétrica. De acordo com o nível da corrente elétrica, os pigmentos mudam de posição dentro das cápsulas, formando imagens visíveis na superfície do e-paper.
Uma vez que uma imagem é formada no papel eletrônico, ela permanece visível sem a necessidade de consumir energia, reduzindo significativamente o uso de bateria do e-reader e permitindo mais horas de leitura entre as recargas.
Outra novidade que já está funcionando em várias partes do mundo é a impressora de jornais, uma máquina da empresa Satellite Newspaper, em que o consumidor imprime a versão em formato pdf do jornal que escolher. Estão disponíveis 184 jornais, de 54 países.
Sobrevivência depende de mudanças no conteúdo
Embora as publicações online apresentem uma grande quantidade de atrativos e vantagens que as mídias tradicionais não dispõem, muitos jornalistas e especialistas em comunicação acreditam que o jornal em papel terá o seu lugar na era digital. Eles sustentam que os jornais digitais não irão substituir as edições impressa, e, mais do que uma ameaça, eles representam um importante instrumento complementar para as empresas jornalísticas.
Em artigo intitulado "Vida longa ao jornal impresso", o editor-chefe do jornal O Globo, Ali Kamel, crê que os jornais impressos vão sobreviver porque promoverão mudanças radicais em seu conteúdo. De acordo com Khammel, os acontecimentos do dia-a-dia estão hoje cada vez mais na esfera do jornalismo televisivo e online. Aos jornais caberá a explicação, a interpretação e a análise dos fatos e dos seus efeitos.
Pedro Dória, de O Estado de S. Paulo, lembrou que a popularização da internet ainda está em fase inicial no Brasil, e que apenas 30% dos brasileiros têm acesso à internet. "Assim, o Brasil ainda tem potencial para aumentar os leitores de jornal, isso porque o país está reduzindo o número de analfabetos e há um crescimento no poder aquisitivo das pessoas mais pobres, aumentando o número de potenciais leitores", comentou, lembrando que, depois de um grande período de declínio, a circulação de jornais teve crescimento no ano passado, "mas graças ao surgimento de publicações de circulação gratuita", enfatizou.
Para ele, uma das alternativas para o jornal será transformar-se num veículo de opinião, capaz de pensar pausadamente sobre os acontecimentos, mais reflexivo, investigativo. "Outro exemplo interessante é o The Week, dos Estados Unidos. Ele não tem a pretensão de dar o furo, de ser o primeiro a noticiar, apenas faz um balanço da semana trazendo as notícias mais importantes do período, que muitas vezes, devido à quantidade imensa de informações que chegam, passam batidas de algumas pessoas. No mundo de hoje, não falta informação, falta edição, separar o que é realmente relevante", explicou. "Além disso, o sujeito já passa a semana na frente do computador, no fim de semana (o jornal circula aos sábados), pode ler deitado na cama, no sofá, onde quiser, é mais agradável", concluiu.
O diretor de redação do jornal O Estado do Paraná, Francisco José Assis, que esteve recentemente nos Estados Unidos debatendo este tema, acredita que o fim do jornal impresso não está tão próximo como se tem anunciado. "O hábito de ler jornal é cultural, o jornal tem público fiel, mas precisa se modernizar, regionalizar cada vez mais a informação, para garantir um produto diferenciado", disse. Para ele, o portal de notícias é mais um instrumento do jornal. "A marca do jornal traz credibilidade ao portal, são dois meios que se completam. Prova disso é que os grandes portais brasileiros têm um jornal por trás. A informação da internet ainda não é confiável, talvez esse seja seu grande desafio", comentou.
Francisco acredita em inovações como o "papel de plástico" ou a possibilidade de se receber o jornal em aparelhos como palm ou celular e destaca a iniciativa do jornal espanhol El Pais, que disponibiliza versão para impressão diagramada ao assinante, mas lembra que a tecnologia ainda pode trazer muitos benefícios para o próprio jornal impresso. "Já imaginou como estará a qualidade gráfica do jornal em alguns anos? Com novas máquinas, impressão mais limpa e rápida, o jornal também vai se modernizar", ponderou. "Com certeza o jornal impresso terá seu lugar, mas tem de estar aberto às novidades, perceber as mudanças, se atualizar. Se estamos fazendo a mesma coisa há muito tempo, com certeza, estamos errados", declarou.

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